quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

VISITANDO O MUSEU DE ARTE DE LA PAZ E REVISITANDO OS ESCRITOS DE SERGE GRUZINSKI

Pátio interno do museu, próximo à entrada.

Durante as minhas férias de 2026, o dia 17 de janeiro foi reservado para  visitar os principais museus de La Paz, Bolívia, dentre eles o Museo Nacional de Arte. Museus de arte sempre estão nos meus roteiros. Eu os entendo como lugares de memória nos quais as expressões artísticas de cada tempo, seja de um passado remoto ou de um tempo mais recente, trazem representações importantes da história. 

Imagens podem ser lidas e elas falam com quem as observa. Exemplo disso é a contextualização que se faz da arte a partir da história, uma vez que ela pode ser melhor apropriada quando se sabe sobre a época na qual ela foi produzida e, também, quem a produziu. História, biografia e memória. Museu de artes tem o pacote completo. 

Pode-se começar com a própria história do museu, de como surgiu a ideia de se apropriar do espaço e transformá-lo num lugar de memória no qual o patrimônio artístico é acolhido. Tanto o espaço quanto a própria ideia de se criar um museu fazem parte da sua história em e muitos casos antecede em décadas sua abertura para o público. O Museu Nacional de Arte, por exemplo, foi fundado em agosto de 1960 e inaugurado seis anos depois, é um museu público federal, subordinado à Fundação Cultural do Banco Central da Bolívia. Localiza-se no centro de La Paz, no Palacio de los Condes de Arana, uma edificação do século XVIII, declarada monumento nacional desde 1930. Ele possui coleções de que registam o desenvolvimento da arte boliviana a partir do período colonial.  

Pátio interno do Museu

Mas sua história remonta a década de 1940, quando tem início o movimento de revalorização do patrimônio cultural pré-hispânico e colonial, tendo à frente o pintor indigenista Cecilio Guzmán de Rojas, natural de Potosí, Bolívia. Rojas foi aluno de Avelino Nogales[1] e de Julio Romero de Torres[2] e tornou-se um dia líderes do movimento de arte indígena boliviana durante a primeira metade do século XX. Ficou conhecido por por misturar os estilos Art Nouveau e Art Déco com imagens.

Ao lado da revolução cultural também ocorreção revoluções políticas e sociais na Bolívia, que estão presentes em várias exposições do museu. Um dos temas que me chamou a atenção é o da Guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai, ocorrida entre os anos de 1932 e 1935. Foi uma guerra pela conquista do território conhecido como Gran Chaco ou Chaco Boreal, que levou a morte de 90 mil pessoas, a maior parte boliviana (cerca de 60 mil).  A causa da guerra foi a suspeita de que haveria petróleo na região, instigada pela Standard Oil, empresa fundada em 1870 por John D. Rockefeller nos EUA. Pois é, sempre ele, o petróleo envolvido em conflitos sangrentos, tendo por detrás governos que representam grandes conglomerados. 

A exposição dá um salto do tempo. Saímos de obras datadas do período colonial e caímos no século XX. museu oferece uma exposição impactante sobre A Guerra do Chaco, com cenas fortes e que revelam a necessidade de preservar esta parte dolorosa da memória do país, marcada pela celebração do sacrifício e do heroísmo. Faço aqui mea culpa, pois depois percebi que fiquei tão imersa nas exposição que quase não tirei fotos. só percebi isso quando estava redigindo este texto. O que não é ruim, pois eu realmente fiz uma imersão, curiosa com o que via e lia.

O quadro faz uma crítica ao Imperialismo representado pela Coca-Cola  (minha nterpretação, não fotografei a legenda).

Uma coisa que me chamou atenção, e muitos momentos durante a viagem foi justamente essa celebração do herói e/ou da heroína. Exposições sobre a independência da Bolívia ou sobre conflitos que marcaram o Estado boliviano. Há ainda monumentos que podem ser vistos em praticamente todas as cidades. Além disso, o boliviano é muito firme ao reivindicar direitos e em protestos contra ações do governo que considera prejudiciais. Pude ver isso de primeira mão, com o fechamento de estradas pela população, em resposta a uma medida impopular do atual governo. E o governo, cede, porque senão a coisa pode evoluir para a violência. A celebração do herói por meio da artes é uma das facetas do sentimento ufanista, e da identidade coletiva da Bolívia, responsável pela formação da identidade de um povo que luta no dia a dia pela sobrevivência e que não tem medo de ir às ruas protestar. Isso pode ser visto no trecho que introduz a exposição:

“Vidas ceifadas, levando consigo histórias e sonhos, foram oferecidas no maior ato de dever cívico que um cidadão pode prestar à sua pátria. Nossos compatriotas lutaram em um território onde a água era escassa, o sol impiedoso e a terra implacável. Nessas condições extremas, até mesmo papel, café e cigarros se tornaram mercadorias preciosas; e os homens, mulheres, meninos e meninas que participaram direta ou indiretamente carregaram — física e espiritualmente — o fardo inestimável de defender o Chaco boliviano” (trecho traduzido do original, que faz parte da exposição de obras sobre a Guerra do Chaco).

A pintura na imagem é "Fiesta Indígena" (ou "Fiesta Nativa"), do artista lituano-boliviano Juan Rimsa

Ainda falando em revolução, já no final da visita, eu mergulhei na obra de Miguel Alandia Pantoja, que é descrito como “O pintor da Revolução”. Trata-se de uma exposição dedicada ao artista, e  que particularmente, foi a que eu mais gostei. Segundo as informações da exposição, Miguel Alandia Pantoja, “concebeu a arte como um compromisso social e político; por isso, sua paleta denunciava veementemente as injustiças. Desde jovem, defendeu um estilo artístico distintamente anticlerical, anticolonial e anti-imperialista” (traduzido de textos da exposição).

Miguel Alandia Pantoja, nasceu em 27 de março de 1914 na zona mineira de Catavi próxima a Potosi, lutou na Guerra do Chaco e foi prisioneiro dos paraguaios. Ele fez parte do movimento do indigenista cultural, relacionado ao 

“movimento latino-americano de conteúdo nacionalista, antiimperialista e de crítica social, que se expressou inicialmente com grande intensidade na arena cultural. O indigenismo associado à crítica social marcou as sociedades em que havia desagregação de valores culturais e sociais tradicionais das comunidades e lutas internas de caráter classista e étnico (...) [e] buscava raízes e identidade nas origens históricas da América Latina e, ao mesmo tempo, na modernização que se dava através de vínculos com as vanguardas artísticas nas primeiras décadas do século XX”[3]. 

Pantoja teve como uma de suas influências foi o já citado Cecilio Guzman de Rojas, que estava ligado ao indigenismo literário de Gamaliel Churata do grupo Orkopata. Ele foi um dos artistas que retratou a Guerra do Chaco, a partir da sua própria experiência, como combatente “tendo vivenciado o conflito em primeira mão nas trincheiras e testemunhado como a guerra abalou uma geração de jovens”. Ele também é testemunho da Revolução Nacional Boliviana, que ocorreu em 1952, liderada pelo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). 

Esta revolução derrubou o regime oligárquico (caudilhista), tendo tido um forte apoio popular, notadamente de mineiros e camponeses. A partir daí foi implementado o voto universal, a reforma agrária, a nacionalização das minas de estanho e o fortalecimento do Estado.  E os trabalhadores das minas e os camponeses são justamente os protagonistas de suas obras. Os heróis não loureados da revolução. O pintor também destaca o papel das mulheres na revolução.

A imagem mostra a obra de arte "La Última Cena con la Chola Paceña", do artista boliviano Cristian Laime Yujra. O artista substitui Jesus e os apóstolos por figuras de "cholas paceñas" (mulheres indígenas de La Paz, Bolívia) em trajes tradicionais, incluindo chapéus-coco.

Sobre o indigenismo cultural, eu me via mergulhada nele quase que o tempo todo. Parece haver uma grande valorização dos povos originário, de uma forma que nunca vi no Brasil. Acho até injusto fazer qualquer comparação, uma vez que nossos povos estiveram submetidos a situações e a politica de Estado que são completamente diferentes da realidade Boliviana. As cholitas, por exemplo, que são as mulheres de origem indígenas que se vestem de forma tradicional é um exemplo disso. Depois de séculos de marginalização elas conquistaram respeito e se tornaram um dos símbolos da Bolívia (falarei sobre elas separadamente),

A Bolívia é um país majoritariamente povoado por descendentes de povos originários, cerca de 59% a 62% da população se identificando como indígena. As principais etnias são: Quéchuas (mais de 49%) e Aimarás (mais de 40%) na região andina, e Guarani, Chiquitano e Moxeño nas terras baixas. Mestiços (30%) e brancos (10%) compõem o restante. [4]

Pintura de Miguel Alandia Pantoja, representando a mulher indígena boliviana - sem título.

Alandia Pantoja utilizou o muralismo para transmitir mensagens de identidade e políticas para as massas.

Pintura do artista boliviano Miguel Alandia Pantoja. 

Por fim, eu gostaria de apontar aqui uma experiência ainda mais pessoal. À medida em que eu apreciava o museu, e não apenas as obras expostas, mas o espaço em si, um edifício belíssimo, que tem em suas características traços araquidônicos coloniais e europeus, eu fui rememorando a a obra de “Pensamento Mestiço”, do historiador francês, Serge Gruzinski. Eu fiz a leitura deste livro a cerca de 20 anos atrás, e me alegrou, ao folheá-lo quando retornei de viagem, que eu havia assimilado uma boa parte do conceito de mestiçagem cultural e aplicado na minha visita ao museu de arte.

Gruzinski realiza estudos sobre a imagem mestiça e o ingresso na modernidade do México. Nesta obra em particular ele busca explicar como se deu essa miscigenação cultural, como ela foi trabalhada pelas elites e pelo povo, o quanto de nativo e como foi preservado e como as categorias europeias foram assimiladas. Gruzinski a influência do renascimento europeu na América, criando um tipo de arte “mestiça”, hibrida. Na época em que eu li o livro, eu ainda não tinha certas habilidades que tenho hoje com relação à análise de imagens, mas senti uma satisfação bem grande ao perceber que pude fazer bom uso da leitura e que ela enriqueceu ainda mais minha experiência durante minha viagem.

Gostaria de finalizar justamente com  a instalação que me impactou, a da Virgen Cerro (Colina Virgem), uma uma representação da arte vice-real que funde a imagem da Virgem Maria no Cerro Rico de Potosí (Ptoschí) Segue a imagem e a descrição:

Parte frontal da obra.

Parte interior da obra que mostro o trabalho nas minas da frente da obra.

"A colina tem um rosto feminino, com as mãos estendidas em gesto de misericórdia, e é coroada pela Santíssima Trindade. Aos seus pés jazem prostrados os poderes imperiais e eclesiásticos. Em suas profundezas, figuras históricas e esquecidas se entrelaçam.

A Virgem da Colina — como modelo iconográfico — foi popularizada no século XVI (1580-1620) através das alegorias literárias dos agostinianos, que descreviam a Virgem Maria como uma colina de pedras preciosas, "da qual emergiu aquela pedra sem pés nem mãos que é Cristo". Isso permitiu a conexão entre o culto indígena às colinas e os supostos milagres da devoção mariana. Nos tempos pré-hispânicos, algumas colinas eram locais de culto, o que abriu a possibilidade de cristianizar a imponente montanha, estabelecendo o mito de que Maria apareceu na colina prateada, permitindo assim a fusão das duas imagens.

O uso de recursos visuais como parte da erradicação da idolatria levou à colocação da montanha sagrada a serviço da mineração de prata, visto que sua exibição pública ocorreu durante o auge da corrida do ouro, sustentada pelo trabalho forçado de povos indígenas sob o sistema de encomienda, escravos trazidos da África e mitayos (trabalhadores forçados). Diante da ambição dos colonizadores, alguns indígenas fizeram um pacto de silêncio para esconder seus locais sagrados (wakas) e as oferendas rituais em seus arredores" (traduzido do espanhol a partir das informações disponíveis no museu".

Por fim, nunca é demais dizer que, apesar de eu ter consultado algumas fontes, o texto é basicamente fruto das minhas impressões, que podem até estar equivocadas. Eu tenho uma vivência local, sou uma estrangeira que tem uma visão superficial, romantizada e até preconceituosa do outro. Mas mesmo assim, acredito que a experiência em si foi um aprendizado. Eu recebi novas informações e estou, aos poucos, cruzando-as com aquelas que eu já tinha e com as que estou adquirindo, movida pela curiosidade.

Pode-se dizer, que no meu caso em particular, a visita ao museu não acabou. Ele está tendo sua continuidade neste texto e nas leituras que eu estou separando sobre a história da Bolívia. Aliás, a visita a um museu realmente termina quando vamos embora? Eu acredito que não. Se e o museu consegue capturar nossa atenção, ele vai instigar nossa curiosidade. Eu saio do museu, mas o museu continua em mim, seria mais ou menos essa sensação. 

Fontes consultadas:

A pintura indigenista de Guzmán de Rojas. Disponível em https://karipuna.blogspot.com/2009/05/pintura-indigenista-de-guzman-de-rojas.html

ANDRADE, Everaldo de Oliveira. História, arte e política: o muralismo do boliviano Miguel Alandia Pantoja. História, São Paulo, v. 25, n. 2 p. 147-161, 2006, p. 148. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/nFwHXDFPn8D59yPPdj5w47Q/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 29 jan. 2026.

Geração de '98. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Generation_of_%2798. Acesso em 28 jan. 2026.

Homenaje a Cecilio Guzman de Rojas (1899-195o). Disponível em: https://www.bolivianet.com/arte/guzmanderojas/index.html. Acesso em 28 jan. 2026.

Indigenous Peoples in Bolivia. Disponível em: https://iwgia.org/en/bolivia.html#:~:text=Os%20grupos%20qu%C3%A9chuas%2C%20aimar%C3%A1s%20e,comp%C3%B5em%2020%20povos%20ind%C3%ADgenas%20reconhecidos. Acesso em 29 jan. 2026.

Júlio Romero de Torres. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Julio_Romero_de_Torres. Acesso em 28 jan. 2026.

 Museo Nacional de Arte, MNA. Disponível em: https://www.museonacionaldearte.gob.bo/. Acesso em 28 jan. 2026.

NEVES, Daniel. Guerra do Chaco. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-chaco.htmAcesso em 29 jan. 2026.


[1] Avelino G. Nogales (Potosí, 1870 - Cochabamba, 1948) foi um proeminente pintor boliviano, reconhecido como mestre do retrato e iniciador do modernismo na pintura boliviana entre os séculos XIX e XX. 

[2] Pintor espanhol que criou arte profundamente espanhola e foi influenciado pelo modernismo e pela Geração de 98 (foi um grupo de romancistas , poetas , ensaístas e filósofos ativos na Espanha na época da Guerra Hispano-Americana, em 1898). Em suas obras combinava cultura popular, folclore e arte andaluza.

[3] ANDRADE, Everaldo de Oliveira. História, arte e política: o muralismo do boliviano Miguel Alandia Pantoja. História, São Paulo, v. 25, n. 2 p. 147-161, 2006, p. 148. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/nFwHXDFPn8D59yPPdj5w47Q/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 28 jan. 2026.

[4] Indigenous Peoples in Bolivia. Disponível em: https://iwgia.org/en/bolivia.html#:~:text=Os%20grupos%20qu%C3%A9chuas%2C%20aimar%C3%A1s%20e,comp%C3%B5em%2020%20povos%20ind%C3%ADgenas%20reconhecidos. Acesso em 29 jan. 2026.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

VISITANDO EL FUERTE DE SAMAIPATA - A MACHU PICCHU BOLIVIANA

Um dos passeio que eu desejava fazer quando estivesse em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, era ir a Samaipata para visitar "El Fuerte de Samaipata", sítio arqueológico pré-incaico. Samaipata (Descanso nas alturas) é uma cidade que fica a cerca de 120 km de viagem, saindo de Santa Cruz de la Sierra. É chamado de a Machu Picchu boliviana, dada a sua importância arqueológica.

Sobre o sítio arqueológico

A cidade de Samaipara possui cerca de 4400 habitantes e se localiza a uma altitude de 1.650 metros, próxima da Cordilheira dos Andes. Seu nome deve-se ao antigo centro cerimonial Noto vem Fuerte, "El Fuerte de Samaipata", que foi  declarado em 1998 como patrimônio da humanidade pela UNESCO e é um local de interesse para pessoas como eu que gostam muito de história. Aliás, eu renovei lá (e em outros passeios que fiz depois) meu amor pela história da América. Quem é historiador e professor acaba tendo  muitas "paixões" ao longo da carreira. História da América, antes da chegada dos europeu (estou tentando evitar a expressão história pré-colombiana), era uma das minhas paixões até os 30 anos.


El Fuerte de Samaipata é um monumento arqueológico que atinge uma altura de 1.949 metros e está situado no topo de uma colina de rocha arenosa, onde culturas antigas esculpiram figuras, como serpentes e pumas, em uma  grande cujas dimensões são 220m x 65m. Além disso há ainda canais, poços, assentos triangulares e retangulares, nichos cavados na rocha (onde possivelmente eram colocadas múmias), terraços para plantio de alimentos, como mandioca, batata e milho.



O espaço teria ocupado pelos Chané, uma cultura pré-incaica por volta de 300 - 400 d.C., sendo depois conquistado incas. A  a partir de 1450 d.C., Império Inca se expandiu para o leste, das terras altas dos Andes para as colinas subtropicais. Depois, vieram os espanhóis. Chané e incas sofreram ataques de guerreiros Ava Guaraní (Chiriguan), que também se estabeleceram na região. Os Ava Guaraní conquistaram as planícies e vales de Santa Cruz de la Sierra, e ocuparam a área de Samaipata. Os Ava Guaraní dominaram a região até o período colonial espanhol.




Já vou adiantando que conhecer o El Fuerte de Samaipata foi mágico. Deixei todo mundo para trás e disparei morro acima. Esqueci até que tenho joelhos lesionados (fim uma preparação antes na academia e com minha maravilhosa fisioterapeuta). Parei em cada área de descanso, tirei fotos fantásticas e devorei as informações sobre o monumento. Claro, El Fuerte de Samaipata é tecnicamente menor do que Machu Picchu, mas não necessariamente menos importante, tanto por ser uma área de ocupação de vários povos, desde o século IV, como, também, pela magnitude da rocha esculpida, creio que a maior ou uma das maiores do mundo. 


Minhas impressões da viagem

Para chegar até Samaipata foi preciso comprar uma passagem em uma das empresas (há varias) que faz o translado por van (taxi), que comporta sete pessoas. No nosso caso, que éramos 4 pessoas e optamos pelo expresso: alugamos toda a van pelo valor de 310 bs (aproximadamente 180 reais), para a ida e para a volta. A empresa ainda oferece o serviço de levar ao Fuerte (e esperar) e de passear em outros locais, como vinhedos (falei sobre um dos vinhedos aqui). Mas é bom avisar para evitar que alguém fique decepcionado: não espere vans (taxi) super limpas e com ar-condicionado. Pode até ser que você consiga, mas 90% de chance de pegar uma van surrada, mas que dá conta do recado.

Alugamos um chalé e pernoitamos na cidade, até para poder conhecer melhor. Optamos por visitar o Fuerte no primeiro dia e, no segundo dia, já com a nossa bagagem no taxi (van), fomos a um vinhedo. O responsável pelo chalé nos deu todo o suporte e indicou lugares para visitar e comer. Era simples, mas bom o suficiente para passarmos apenas uma noite e ficava perto do centro. Aliás, para o café da manhã, fomos para o mercado municipal, que é muito organizado do que o de Santa Cruz de La Sierra, até por ser menor (mas não apenas por isso). 

No primeiro piso, frutas, legumes, e mercarias básicas para casa. No segundo piso, uma área de alimentação, com lanchonetes que servem sucos, lanches, café da manhã e refeições completas. Na entrada também podemos encontrar Cholitas (mulheres indígenas aimarás e quéchuas da Bolívia, reconhecidas por suas vestimentas tradicionais, incluindo saias polleras e chapéus-coco, simbolizando resistência cultural e orgulho) vendendo refeições quentes e frutas como pêssegos e morangos. Cheguei a comprar um quilo de morangos, por menos de 10 reais, grandes e doces.


Eu, particularmente, adorei. A cidade é muito bonitinha, lembrando cidades do interior de Minas (mas com características bolivianas). Um passeio muito bom e barato e que abre para outras opções também, pois o ecoturismo é muito forte na região, com caminhadas na montanha e cachoeiras lindíssimas. Achei que seria muito difícil de chegar a Samaipata, mas não foi. Também foi muito fácil alugar o chalé, a um preço bem acessível. O passeio teve um excelente custo-benefício mas, também, alguns contratempos. 

A estrada, por exemplo, estava bem prejudicada pela chuva que havia ocorrido na semana anterior, com muitos trechos perigosos e risco de deslizamento de pedra. Mas tivemos sorte, pois o tempo estava bom e não pegamos chuva em nenhum momento (embora a previsão do tempo alertasse para a possibilidade de pancadas de chuva). Foi literalmente uma aventura, mas voltamos vivos.

Passei um perrengue homérico: esqueci minha pasta de documentos, com o meu passaporte, no chalé. Dei falta já em Santa Cruz de La Sierra. Entrei em pânico, liguei desesperada para o responsável, pois tinha voo no dia seguinte. Ele imediatamente verificou, encontrou e enviou pelo taxi (a van). Recebi no mesmo dia e paguei... 5bs (3 reais). se alguém falar mal dos bolivianos na minha frente, apanha! Nunca vi tanta eficiência para resolver um problema. E não aceitaram gorjeta. 

Ficamos lá até dias 8 e 9 de janeiro, pois íamos para Cochabamba no dia 10 de janeiro. Uma coisa que conversamos entre nós, e eu concordo, é que vale a pena passar mais dias em Samaipata do que em Santa Cruz de La Sierra (que dá pra ver tudo que interessa em dois dias). Há muitas atividades, além de ter um clima mais ameno. 

E falando em clima, cuidado com duas coisas: a mudança de temperatura e o uso do protetor solar. Como era verão, pegamos sensação térmica de 40º em Santa Cruz de la Sierra e, de repente, a temperatura caiu para 25º (até menos), em Samaipata. Como resultado, tive uma faringite, a sorte foi que eu levei minha sacola de remédios, mas foram pelo menos 5 dias de recuperação. O sol também fica mais forte com a altitude, então sempre use filtro solar mesmo estando fresco e ventando.

OBS: Todas as fotos são minhas e foram produzidas durante o passeio no dia 8 de janeiro.

sábado, 24 de janeiro de 2026

IMPRESSÕES GERAIS SOBRE MINHA VIAGEM À BOLÍVIA

Minha primeira viagem pela BOA, não tenho do que reclamar, além de um atraso na ida para Cochabamba.
Nas férias de janeiro, eu tirei este ano 15 dias para viajar pela Bolívia, pois, confesso, conheço muito pouco da América do Sul. A única viagem que fiz foi em 2000, para o Peru. Depois, fiquei um bom tempo sem viajar para fora do Brasil e, quando retomei, foi para a Europa. Desta forma, este ano resolvi trocar o inverno europeu pelo verão nos Andes. Comecei a planejar a viagem no início de 2025, e chamei alguns amigos para a aventura. Três deles toparam e, dia 6 de janeiro, partimos para a Bolívia. O roteiro incluiu 5 cidades, dois passeios previamente agendados e outros que compramos ao longo da viagem.

Saímos de São Paulo, do aeroporto de Guarulhos, pois o custo com a passagem de avião é consideravelmente menor. Viajamos pela Empresa Pública Nacional Estratégica Boliviana de Aviación (Boliviana de Aviación ou BoA), que é a companhia aérea de propriedade do governo boliviano, com direito a uma bagagem de porão gratuita de 23 kg. A primeira dica que eu dou é optar por esta empresa, que tem o melhor custo benefício e que, pelo que eu li, agora vai ter voos saindo do Rio de Janeiro também.

Catedral Basílica de São Lourenço, em Santa Cruz

Como eu não conhecia nada da Bolívia, pesquisei bastante e eu resolvi montar um roteiro bem eclético. A primeira cidade foi Santa Cruz de La Sierra, onde chegamos no dia 6 de janeiro e ficamos até o dia 10 de janeiro. No dia 6 de janeiro pegamos a Festa de Reis, e o centro da cidade estava muito animado e festivo, o que causou uma primeira boa impressão. Santa Cruz de la Sierra é uma cidade baixa, com cerca de 600 m de altitude, e muito quente. Não tem grandes roteiros turísticos, em um dia vimos tudo que interessava. Mas lá fizemos duas atividades que forma marcantes. 

Degustação privada de vinhos bolivianos.

Degustação privada de vinhos bolivianos.

A primeira foi no dia 7 de janeiro, uma degustação privada de vinhos bolivianos, agendada antecipadamente. Foi além da expectativa. Fomos recebidos pelo anfitrião que preparou uma mesa magnifica, com vinhos, queijos, embutidos e frutas. Ele nos contou com detalhes sobre a história dos vinhedos e da produção de vinho na Bolívia, enquanto degustávamos deliciosos vinhos bolivianos, que são, inclusive, melhores do que os chilenos, na minha modesta opinião. Foram mais de duas horas que nem percebi passar (vou deixar  link para a degustação aqui caso alguém tenha curiosidade).

Forte de Samaipata.

Forte de Samaipata.

A segunda atividade foi uma viagem de um dia e meio a Samaipata, onde se encontra um maravilhoso sítio arqueológico de 400 d.C., e vinhedos que produzem vinhos deliciosos. Lá chegamos a uma altitude de 1750 m acima do nível do mar, com um clima mais ameno do que o de Santa Cruz de La Sierra. Para ir a Samaipata, contratamos um transporte particular, cujo custo benefício foi muito bom. No dia 8 de janeiro, fomos ao Forte de Samaipata (vou falar especificamente dele em outra postagem). 

Vinhedo 1750, em Samaipata.

Vinhedo 1750, em Samaipata.
Vinhos produzidos no vinhedo 1750, em Samaipata.

No dia 9 de janeiro, visitamos o Vinhedo 1750 (que tem este nome pois produz uvas a esta altitude). Além de passear pela plantação, aprendemos mais sobre a produção de uvas boliviana e ainda participamos de uma degustação de vinhos, por, pasmem, por cerca de 30 reais. Samaipata tem ainda muitas outras atividades a oferecer e uma das coisas das quais arrependemos foi justamente não ter ficado mais tempo por lá.

Mercado em Cochabamba.
Estação de trem em Cochabamba.
 Catedral metropolitaba, localizanda na Plaza 14 de Septiembre, em Cochabamba.

Museu arqueológico de Cochabamba.

Dia 10 de janeiro partimos para Cochabamba, que nas palavras de uma das viajantes "não prometia anda e entregou tudo". Como subimos para uma altitude de mais de 2700 m, o clima, mudou de quente para frio, alternando entre dia nublado e com sol entre nuvens. Lá ficamos num hotel no centro, caminhamos pela cidade, fomos à feira de artesanato local, à estação de trem e ao Museu arqueológico. Visitamos também os vários mercados, com diversos produtos, que variavam de frutas, carnes a roupas e objetos de uso cotidiano, e fizemos dois passeios que foram marcantes. 

Cristo de la Concordia.
XIII Estação da Via-Crúcis, quando Jesus e tirado da cruz, no Cristo de la Concordia.

Primeiro, no dia 11 de janeiro, fomos ao Cristo de la Concordia, é uma enorme estátua monumental de Jesus Cristo, localizado na colina de San Pedro, a uma altura de 265 m acima da cidade. A estátua mede 34,20 metros de altura, sobre um pedestal de 6,24 metros e com uma altura total de 40,44 m, e é maior do que o Cristo Redentor, ficando a uma altitude de 2840 m acima do nível do mar. Subimos de teleférico, mas há uma escadaria, com 14 estações da via sacra que muita gente prefere experimenta, até porque além da paisagem, as estações são lindas. A vista da cidade é fabulosa, mesmo com o tempo nublado.

Tarata, vista da torre do relógio.

Pichón a la Brasa.
Laguna Angostura.
Bosque - com espinhos que furam até o solado das botas mais resistentes.

Para o segundo passeio, nós contratamos antecipadamente um guia que foi nos buscar no hotel e, de carro, nos levou para conhecer Tarata, Cliza e Laguna Angostura. Fizemos uma imersão cultural, na qual visitamos pequenas cidades históricas. Experimentamos pratos como  o Pichón a la Brasa (pombo na brasa), que é a comida exótica mais famosa da região de Cliza  caminhamos por um bosque de árvores retorcidas, onde a população realiza festivais e que tem muitas lendas envolvidas, inclusive a do nascimento de bruxas. Visitamos também um vinhedo de produção familiar e encerramos o passeio na Laguna Angostura, já chegando em Cochabamba. Saímos 10h da manhã e retornamos às 18h. Valeu cada centavo, inclusive porque o guia foi fantástico.

Sobre os transportes: tanto em Santa Cruz de la Sierra, quanto em Cochabamba, os automóveis eram bem precários, mas deram para o gasto e chegamos bem, então, não se assustem. O trânsito em todas as cidades maiores que fomos, sem exceção, é caótico. Mas sobrevivemos, afinal, não tem como escapar de algumas emoções durante o passeio. Recomendo não alugar carro, melhor deixar a direção nas mãos de um motorista local mesmo. Uber, quase não usamos, primeiro porque a oferta é pouca (com exceção de Santa Cruz de La Sierra), segundo, porque taxi é muito barato.

Mercado das Brujas.

Tuna ou Estudantina é um grupo musical tradicional, comum em Portugal e Espanha, formado por estudantes universitários que tocam instrumentos de corda (plectro), cantam serenatas e vestem trajes académicos. Tivemos uma apresentação no hotel no último dia.

Igreja e Convento de São Francisco.

Dia 14 pela manhã partimos para La Paz, que fica a uma altitude de 3.650 m, que foi, com certeza um dos pontos altos da viagem. Do hotel aos passeios, tudo perfeito. Aliás, sobre o hotel, foi na minha opinião  o melhor de todos. Fica localizado numa área privilegiada, cercado de empresas de turismo, monumentos históricos, restaurantes e praticamente dentro do Mercado das Brujas. O Hotel Sarganaga foi o mais barato de todos e o que nos ofereceu a melhor experiência. Incluse, ele inclui em seu restaurante apresentações de dança e música tradicionais para os clientes.


A Luta Livre de Cholitas é um espetáculo cultural e esportivo único na Bolívia, popularizado desde 2002 em El Alto, próximo a La Paz, onde mulheres indígenas Aymara (cholitas) lutam usando seus trajes tradicionais — pollera (saia multicamadas), tranças e chapéu-coco.

Mini Teleférico.

Contratamos dois tours: uma para conhecer a cidade e ir ao Vale da Lua e outro para a Luta de Cholitas (vou falar separadamente delas). Tudo perfeito. A cidade é maravilhosa e tem uma estrutura para turismo fantástica, além de museus e igrejas impecavelmente maravilhosos. Destaque pelo transporte coletivo realizado pelo Mi Teleférico, o maior sistema de teleféricos urbanos do mundo, conectando La Paz a El Alto, na Bolívia, a mais de 4.000 metros de altitude. Inaugurado em 2014, opera com 10 linhas, servindo como transporte público rápido e seguro, além de atração turística com vistas panorâmica. 

Tiramos um dia só para ir a museus, e foi maravilhoso. Fomos a 3 deles. Um de arte, um de história e antropologia e um museu biográfico. Saí extasiada dos dois primeiros e sobre eles pretendo escrever um postagem a parte. La Paz também foi uma das cidades mais baratas, seja com relação a hotel, alimentação e transporte. Uma curiosidade: as casas tem majoritariamente paredes de tijolo sem acabamento, mas isso é uma opção do proprietário, que paga mais importo se a casa for pintada. Tivemos a curiosidade de perguntar à nossa guia, porque achamos muito estranho.

Ilhas flutuantes próximas a Copacabana. Estruturas artificiais construídas com totora (planta aquática) no Lago Titicaca, oferecendo tours, restaurantes e uma imersão cultural na cultura Uru. 

Vista do Lago - foto tirada do barco.

Por do sol em Copacabana.
Ruínas incas na Isla del Sol.

Ficamos lá até dia 18 de janeiro, quando partimos para Copacabana, de ônibus, nosso último passeio, cidade às margens do Lago Titicaca, a 3.812 metros de altitude (4000 m no ponto mais alto da cidade). A cidade por si só é linda. Os passeios de barco nas ilhas são bons e baratos. Tirei minhas melhores fotos lá. E a cor da água de do céu? Indescritíveis! Também visitamos lugares históricos como a Isla del Sol, com ruínas Incas (a Bolívia fez parte do antigo Império Inca. O hotel foi muito barato, 37 reais a diária (ficamos dois dias), com um bom café da manhã e com funcionários muito acolhedores. Sem falar que a localização era excelente.

Alcachofra recheada, quinoa, banana da terra, salada e sopinha (paguei aproximada mente 10 reais).
Comida típica em Tarata: uma linguiça mista feita na hora, com trigo e salada (aproximada mente 10 reais).

Comida típica, charque de lhama, choco, ovo cozido, queijo andino e batata (aproximadamente 28 reais - no restaurante do hotel).

Peito de frango grelhado, com molho de mostarda, salada, arroz e acompanhado de uma sopinha (aproximadamente 22 reais).

Salmão, sala da , batata frita, sopa e uma cestinha de pães de fermentação natura ( aproximadamente 19 reais).

Aliás, verdade seja dita: dá para passear muito e gastar pouco. Tanto com hotéis, passeios, alimentação e transporte nos surpreendemos com o preço. A média de gasto por refeição (e refeição boa e completa) foi de 20 reais (saindo até por bem menos qu isso). O orçamento deu e sobrou. Uma dica, Wise e cartões de crédito e de débito internacionais, em geral, não são uma boa. Em muitos lugares eles não são aceitos. Prefere-se o "efetivo", dinheiro vivo. O câmbio vale a pena, mas nas casas de câmbio eu ficam na cidade, que pagam muito acima do valor oficial.

Retornamos para o Brasil dia 21 de janeiro, pelo aeroporto de La Paz, com escala em Santa Cruz de la Sierra (os voos internacionais saem todos de lá). Uma última coisa que acho que preciso relatar: a sensação de segurança. Em todas as cidades da Bolívia não teve um momento que me senti insegura. Há bastante policiamento, mas não é por isso. Simplesmente as pessoas respeitam o que é do outro. 

Em todas as cidades eu vi lojistas deixando as lojas vazias, saindo e ficando longe por longos períodos, e NINGUÉM mexe! Sério! E nas ruas as coisas são bem tranquilas também, diferente do Brasil e de muitos países da Europa. Claro, deve haver áreas violentas e eu vi noticiarem crimes na televisão, mas no geral, e principalmente nas áreas turísticas, é tudo muito tranquilo.

A previsão do tempo dizia que choveria todos os dias mas, na prática, pegamos chuva durante o dia duas vezes (e passou rápido) e a noite. Tanto que pelas fotos dá para ver que houve muitos dias com céu azul, apesar das nuvens. Por fim, só tenho elogios a fazer e recomento fortemente que coloquem a Bolívia como um dos destinos bons e baratos para férias. Eu mesma pretendo retornar, para ir a outros lugares, com Sucre e Potosi.